Tecnologia

Inteligência Artificial em África Pode Gerar 16,5 Mil Milhões de Dólares até 2030

Relatório da Mastercard revela potencial transformador da IA no continente africano, com previsão de criação de 230 milhões de empregos digitais

A Inteligência Artificial (IA) está a emergir como uma força transformadora em África, com o potencial de revolucionar sectores desde a agricultura aos serviços financeiros. Segundo um relatório recente sobre o tema, o mercado africano de IA poderá crescer de 4,51 mil milhões de dólares americanos em 2025 para 16,53 mil milhões até 2030.

O documento revela uma taxa de crescimento anual composto (CAGR) de 27,42% para o mercado de IA africano, significativamente superior às médias globais. Esta expansão poderá criar até 230 milhões de empregos digitais na África Subsariana nos próximos cinco anos, posicionando o continente como um actor central na economia digital global.

Os especialistas apontam que África tem uma oportunidade de saltar etapas tecnológicas tradicionais, aproveitando a sua demografia jovem, com idade média de 19 anos, e a crescente adopção de tecnologias móveis.

A IA está já a ser implementada com sucesso em várias áreas cruciais para o desenvolvimento africano. Na inclusão financeira, plataformas como a Tala no Quénia e a M-KOPA estão a usar modelos de crédito alternativos para chegar a populações tradicionalmente excluídas do sistema bancário.

Na educação, iniciativas como as Rising Academies e o tutor de matemática Rori, que funciona via WhatsApp, estão a democratizar o acesso ao ensino. No sector agrícola, a plataforma ganesa Farmerline já suporta 110.000 agricultores em 27 línguas diferentes, utilizando análise preditiva e drones para aumentar a produtividade em até 30%.

A saúde também beneficia desta revolução tecnológica, com sistemas como o Aurora Health Systems e o Babylon no Ruanda a melhorar o acesso a cuidados médicos. No Malawi, a implementação de ferramentas de IA na monitorização fetal reduziu em 82% a mortalidade neonatal num centro em Lilongwe.

O relatório identifica vários países como líderes em diferentes aspectos da adopção de IA. A África do Sul mantém a posição de líder em infraestruturas e investigação, concentrando mais de 66% da capacidade de data centers do continente. O país investiu 11,45 mil milhões de dólares em fibra óptica entre 2019 e 2024.

A Nigéria destaca-se como hub de inovação, com 70% da população a usar IA generativa e um fundo de 100 milhões de nairas destinado a startups do sector. O Quénia, conhecido como “Silicon Savannah”, alcançou 90% de inclusão financeira e planeia criar um cluster de 3.000 GPU em parceria com a NVIDIA.

Outros países como Marrocos, Egipto, Maurícias e Ruanda também mostram progressos significativos, cada um com as suas especificidades e pontos fortes.

Apesar do optimismo, os dados revelam obstáculos significativos que África enfrenta. A fragmentação regulatória entre os 54 países africanos dificulta a uniformização do desenvolvimento da IA. Menos de 50% dos africanos estão online, e o continente possui menos de 1% da capacidade global de data centers.

A falta de talento local é outro constrangimento importante. Muitas universidades africanas ainda não oferecem formação especializada em IA, embora programas como o Deep Learning Indaba e o AI4D Africa estejam a tentar colmatar esta lacuna.

Particularmente preocupante é a questão dos dados: grande parte dos algoritmos utilizados são treinados com dados não africanos, criando viés cultural e linguístico que pode agravar desigualdades existentes. Críticos alertam que, sem uma abordagem cuidadosa, a IA pode reproduzir ou amplificar disparidades sociais já existentes no continente.

Em resposta a estes desafios, África tem dado passos importantes na governança da IA. Em 2024, foi adoptada a Declaração de Kigali sobre IA Responsável, e a União Africana começou a implementar a Estratégia Continental de IA.

O relatório defende que a regulação deve basear-se em princípios flexíveis e adaptáveis, priorizando a privacidade, justiça, transparência e inclusão, em vez de regras excessivamente prescritivas.

O sector privado tem vindo a desempenhar um papel crescente no desenvolvimento da IA em África. Várias empresas multinacionais e locais estão a implementar soluções de IA em áreas como a detecção de fraudes, personalização de serviços e apoio a startups locais.

Alguns sistemas já processam centenas de transacções por minuto e têm conseguido duplicar a velocidade de detecção de irregularidades utilizando IA generativa. No entanto, os especialistas sublinham que o sucesso desta transformação dependerá de parcerias equilibradas entre todos os actores: governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.

Os analistas concluem que África está numa posição única para liderar em IA, não como seguidora, mas como inovadora com soluções adaptadas às suas realidades específicas. O sucesso dependerá de investimentos coordenados em infraestrutura, talento e políticas públicas, mantendo sempre o foco na inclusão e desenvolvimento sustentável.

Com a contribuição esperada da IA para a economia global estimada em 15,7 biliões de dólares até 2030, África tem a oportunidade de capturar uma parcela significativa deste valor. Contudo, será necessário superar os desafios estruturais identificados para transformar o potencial teórico em crescimento económico real e inclusivo.

Este artigo baseia-se em dados do estudo “AI in Africa: Harnessing the Transformative Power of Artificial Intelligence“, publicado pela Mastercard em Agosto de 2025.

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