TENDÊNCIAS

Inteligência Artificial Pode Impulsionar Comércio Mundial em 37% até 2040

Relatório da OMC alerta que benefícios da tecnologia dependem de políticas inclusivas e cooperação internacional

A Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou o seu relatório anual “World Trade Report 2025”, que este ano se debruça sobre uma questão central da actualidade: como fazer com que a inteligência artificial (IA) e o comércio internacional trabalhem em conjunto para beneficiar toda a humanidade.

O documento, intitulado “Making Trade and AI Work Together to the Benefit of All”, apresenta um cenário promissor, mas também desafiante para o futuro da economia global. Segundo as projecções da organização, a IA poderá impulsionar o comércio mundial entre 34% e 37% até 2040, com particular destaque para os serviços digitais, que podem crescer 42%.

O relatório identifica várias áreas onde a inteligência artificial pode revolucionar o comércio internacional. A optimização logística, a previsão de disrupções nas cadeias de valor e a aceleração dos processos alfandegários são apenas alguns dos benefícios apontados pelos especialistas da OMC.

“A IA pode adicionar até 0,68 pontos percentuais ao crescimento anual da produtividade total dos factores”, refere o documento, sublinhando que os sectores mais digitais e escaláveis serão os mais beneficiados.

Os números são impressionantes: o PIB global poderá aumentar entre 12% e 13% até 2040, graças à adopção generalizada desta tecnologia. Além disso, o comércio internacional facilita o acesso a componentes críticos para o desenvolvimento da IA, como semicondutores, serviços de cloud e dados. Em 2023, as trocas comerciais de bens que viabilizam a IA totalizaram impressionantes 2,3 biliões de dólares.

Contudo, o relatório da OMC não esconde as preocupações. A principal delas prende-se com o aprofundamento das desigualdades existentes, tanto entre países como dentro de cada economia nacional.

Actualmente, apenas 41% das pequenas e médias empresas utilizam inteligência artificial, contrastando com mais de 60% das grandes corporações. Esta disparidade reflecte-se também entre países: enquanto as nações desenvolvidas lideram a implementação destas tecnologias, os países de baixo rendimento enfrentam limitações significativas devido à ausência de políticas digitais adequadas e falta de financiamento.

A concentração do poder económico constitui outro motivo de alarme. As cadeias críticas da IA – semicondutores, centros de dados, serviços de cloud – estão dominadas por poucas empresas e países. Oito das dez empresas mais valiosas do mundo pertencem ao sector digital, e 78% do tráfego dos principais sites de IA concentra-se em apenas três companhias.

O relatório apresenta uma perspectiva com várias nuances sobre os efeitos da IA no emprego. Por um lado, a tecnologia tende a substituir tarefas, especialmente em profissões de média e alta qualificação. Por outro, prevê-se uma redução do “prémio de qualificação” em 3% a 4%, o que pode beneficiar trabalhadores menos qualificados.

Simultaneamente, a IA favorece sectores intensivos em capital e dados, aumentando o retorno do capital relativamente ao trabalho em 14 pontos percentuais, segundo as simulações da OMC.

O aspecto ambiental não foi esquecido na análise. Os centros de dados já consomem 1,5% da electricidade global, e esta percentagem tende a crescer com a expansão da IA. O relatório alerta que as políticas de energia renovável se concentram nos países ricos (69%), enquanto os países pobres representam apenas 1,5% deste esforço.

Face a este cenário, a OMC propõe várias medidas para garantir que os benefícios da IA sejam partilhados de forma mais equitativa. O novo Índice de Abertura de Política Comercial para a IA revela grandes disparidades entre países, com muitas economias em desenvolvimento a manterem barreiras aos serviços e fluxos de dados.

As recomendações incluem a expansão do Acordo de Tecnologia da Informação (ITA), a melhoria dos compromissos no Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS) e, fundamentalmente, maior investimento em educação e formação em IA. Actualmente, menos de um terço das economias em desenvolvimento têm estratégias nacionais para esta tecnologia.

O relatório defende uma maior integração da OMC com outras organizações internacionais, como o Banco Mundial, a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a OCDE e a UNCTAD, para alinhar a governação digital com as regras comerciais.

Para África, o documento destaca iniciativas como o “Digital Trade for Africa” e o “WEIDE Fund”, que podem apoiar os países em desenvolvimento na construção de capacidades regulatórias e infraestruturas digitais.

A conclusão do relatório é clara: o impacto futuro da inteligência artificial dependerá das decisões tomadas hoje. Um cenário positivo – com investimento em infraestruturas digitais, capacitação laboral e políticas inclusivas – pode transformar a IA num motor de crescimento inclusivo. Na ausência de políticas coordenadas, porém, os riscos de aumento das desigualdades e concentração de benefícios em poucos actores tornam-se uma realidade preocupante.

Para países como Angola, o relatório sublinha a importância de não ficar para trás nesta transformação tecnológica. O investimento em infraestrutura digital, educação e políticas adequadas pode determinar se a nação conseguirá aproveitar as oportunidades da inteligência artificial ou se ficará limitada a observar os benefícios concentrarem-se noutros mercados.

Parceiros Banner POA

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo