OPINIÃO

O Dia Internacional da Mulher Precisa de Um Dia Internacional da Mulher

Por Dalmo Silva

Todos os anos, no dia 8 de Março, repete-se o mesmo ritual. As redes sociais enchem-se de mensagens de homenagem, as empresas organizam pequenos gestos simbólicos, distribuem-se flores, publicam-se fotografias de equipas e multiplicam-se as palavras de reconhecimento. O Dia Internacional da Mulher tornou-se um momento de celebração.

Mas talvez seja precisamente aqui que reside um paradoxo.

O Dia Internacional da Mulher não nasceu para celebrar conquistas. Nasceu da luta. Nasceu de manifestações, confrontos, greves e reivindicações protagonizadas por mulheres que exigiam direitos básicos: melhores condições de trabalho, igualdade salarial, participação política e reconhecimento social. Foi marcado pela contestação e pela mobilização colectiva.

Hoje, porém, a forma como a data é frequentemente assinalada parece contar uma história diferente.

Em muitas organizações, o cenário repete-se de forma quase coreografada: lideranças maioritariamente masculinas que, neste dia, ou nos dias que o antecedem, distribuem flores e abraços às suas colaboradoras. O gesto é simpático, sem dúvida. Mas também levanta uma pergunta incómoda: será que o essencial está realmente a ser feito?

Porque, para lá das mensagens e das fotografias, persistem questões que continuam longe de estar resolvidas. As diferenças salariais entre homens e mulheres mantêm-se em muitos sectores. O acesso a posições de liderança continua desigual. A conciliação entre vida profissional e familiar continua a pesar de forma desproporcionada sobre as mulheres. E, em muitos contextos, os obstáculos estruturais permanecem praticamente intactos.

Nada disto se resolve com flores.

É evidente que houve progresso. Ignorá-lo seria injusto. Ao longo das últimas décadas, as mulheres conquistaram espaços fundamentais na sociedade, na economia e na política. Mas reconhecer avanços não deve significar transformar uma data de reivindicação numa celebração confortável.

Talvez o Dia Internacional da Mulher precise, paradoxalmente, de voltar a ser o que sempre foi: um dia de inquietação.

Um dia para fazer perguntas difíceis. Para confrontar estatísticas. Para avaliar compromissos reais e não apenas gestos simbólicos. Um dia em que as organizações olham para dentro e se interrogam sobre as suas próprias práticas, políticas e estruturas de poder.

Celebrar pode ser importante. Mas celebrar demasiado cedo pode ser uma forma subtil de dar a luta por concluída.

E talvez ela esteja longe disso.

Se o Dia Internacional da Mulher se transformar apenas num momento de homenagem, corre o risco de perder aquilo que o tornou necessário em primeiro lugar. A memória das mulheres que lutaram para que este dia existisse exige mais do que palavras bonitas uma vez por ano.

Exige continuidade. Exige acção. Exige mudança.

Por isso, talvez seja tempo de fazer uma pergunta simples: será que o Dia Internacional da Mulher ainda está a cumprir a sua missão?

Ou será que o Dia Internacional da Mulher precisa, hoje, de um novo Dia Internacional da Mulher?

Dalmo Silva, Empreendedor e criador do website Marcas em acção.

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