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Consumidores Privilegiam Valor em Detrimento do Preço Baixo

Novo estudo revela mudança no comportamento de compra com implicações globais para estratégias de marca

Os consumidores estão a transferir os seus gastos para marcas que oferecem melhor relação qualidade-preço, em detrimento daquelas que competem exclusivamente com preços baixos. Esta tendência, identificada num recente estudo sobre o mercado americano publicado pela Deloitte, reflecte uma mudança global no comportamento de consumo que pode ter implicações significativas para marcas em todo o mundo, incluindo Angola.

A investigação sobre padrões de consumo revela que 40% dos consumidores americanos podem ser classificados como “caçadores de valor” – pessoas que adoptam três ou mais comportamentos conscienciosos em relação aos custos por mês, em sectores como automóvel, alimentação, viagens de lazer, restauração e retalho.

Entre estes consumidores, quase dois terços (65%) cozinham mais refeições em casa, mais de metade (53%) compram ingredientes mais baratos no supermercado e 59% mudaram para marcas de distribuidor – uma taxa cerca de dez vezes superior à dos consumidores que não procuram valor de forma activa.

Esta tendência sugere uma mudança estrutural no comportamento de consumo que poderá estender-se a outros mercados, incluindo economias emergentes onde a sensibilidade ao preço tradicionalmente coexiste com a procura de qualidade.

Os períodos de inflação elevada, como o vivenciado globalmente em 2022, parecem ter deixado marcas profundas na mentalidade dos consumidores. Esta mudança comportamental reflecte-se numa maior sensibilidade às percepções de preço e valor, que se mantêm mesmo após o abrandamento das pressões inflacionistas.

Contrariando a percepção comum de que apenas os consumidores com dificuldades financeiras procuram valor, a investigação revela que mesmo famílias de rendimentos elevados (superiores a 200.000 dólares anuais) adoptam comportamentos de procura de valor. Estas famílias planeiam reduzir significativamente os gastos em categorias discricionárias como vestuário, restaurantes, lazer e cuidados pessoais.

Este padrão sugere que a procura de valor transcendeu as limitações orçamentais, tornando-se uma preferência de consumo mais ampla que pode reflectir mudanças nos valores sociais e prioridades de vida.

A investigação demonstra que, embora valor e preço estejam intrinsecamente ligados, uma porção significativa das percepções de valor de uma marca (entre 10% a 40%) deriva de factores que não o preço. As marcas que conseguem oferecer “mais valor pelo preço” destacam-se principalmente em três áreas: qualidade, atitude do serviço e confiança.

Esta descoberta desafia a estratégia de muitas marcas que competem exclusivamente com base no preço, sugerindo que investimentos em qualidade e experiência do cliente podem ser mais sustentáveis a longo prazo.

A mudança comportamental não se limita a intenções declaradas em questionários. Dados de transacções reais demonstram uma transferência efectiva de quota de mercado, com os consumidores a direccionar as suas compras para marcas que oferecem melhor percepção de valor, mesmo quando estas não são necessariamente as mais baratas.

Esta transferência é particularmente visível em sectores como supermercados, restauração e hotelaria, sugerindo que a tendência afecta tanto compras quotidianas como decisões de consumo menos frequentes.

Esta mudança comportamental apresenta tanto desafios como oportunidades para as marcas. As empresas que tradicionalmente competem apenas com base no preço podem encontrar-se em desvantagem, enquanto aquelas que conseguem combinar preços competitivos com valor acrescentado podem beneficiar desta tendência.

Estratégias emergentes incluem:

1. Optimização inteligente de preços: Desenvolvimento de estratégias de preços mais sofisticadas que considerem a elasticidade da procura e o posicionamento único de cada marca.

2. Investimento em valor percebido: Foco na melhoria da qualidade, experiência de atendimento e construção de confiança com o consumidor.

Para marcas que operam em mercados como Angola, esta tendência sugere a importância de equilibrar competitividade de preços com investimentos em qualidade e experiência do cliente, especialmente num contexto de crescente sofisticação do consumidor local.

Embora baseada no mercado americano, esta investigação reflecte padrões de comportamento que podem ser observados globalmente, particularmente em mercados emergentes onde o crescimento económico coincide com maior consciencialização dos consumidores sobre valor e qualidade.

Este artigo baseia-se em dados de uma investigação da Deloitte sobre 9.000 consumidores americanos e análise de mais de 900.000 pontos de dados de consumidores em 290 marcas de consumo, conduzida entre Setembro de 2024 e Maio de 2025.

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