Electrodomésticos: Durabilidade e Eficiência Voltam ao Centro das Decisões
Estudo internacional aponta mudança de paradigma no sector com consumidores mais pragmáticos

O sector dos electrodomésticos, conhecidos internacionalmente como “white goods”, está a atravessar uma transformação significativa. O estudo “What’s trending in white goods? Durable, efficient, and affordable”, publicado em Agosto pela consultora McKinsey, sugere que os consumidores adoptaram uma abordagem mais cautelosa nas suas decisões de compra, priorizando características básicas como durabilidade, eficiência energética e preço acessível face a funcionalidades avançadas ou conectadas.
A investigação, designada “Global State of White Goods Survey”, foi conduzida no quarto trimestre de 2024 junto de mais de 9.000 consumidores na Europa, Japão e Estados Unidos. Importa notar que o estudo não abrange mercados emergentes como África, América Latina ou Ásia em desenvolvimento. O estudo abrangeu homens e mulheres entre os 18 e os 74 anos que se identificaram como decisores na compra de pelo menos um electrodoméstico nas categorias frigorífico-congelador, máquina de lavar roupa, máquina de lavar loiça, fogão ou placa, nos 24 meses anteriores.
Uma das tendências identificadas relaciona-se com o alongamento dos ciclos de substituição. A percentagem global de consumidores que espera dez anos ou mais para substituir os seus produtos aumentou de 35% em 2023 para 39% em 2024. Os investigadores atribuem esta tendência a factores económicos e possivelmente a melhorias na durabilidade dos produtos.
O fenómeno apresenta variações regionais notáveis. Países como Polónia, Turquia e Reino Unido registam ciclos de substituição mais rápidos (cinco anos ou menos), enquanto França, Alemanha, Japão e Suécia demonstram maior longevidade na utilização dos equipamentos.
Os consumidores classificam agora a durabilidade, eficiência e acessibilidade como mais importantes do que funcionalidades avançadas ou conectadas. O ranking de prioridades para 2024 coloca o preço acessível (67%), facilidade de uso (66%) e marca de confiança (64%) no topo das considerações, relegando soluções conectadas para apenas 29%.
Mais impressionante ainda é a disposição dos consumidores para pagar um prémio por características que consideram verdadeiramente valiosas: 55% dos consumidores estão dispostos a pagar 30-40% mais por produtos duráveis (15-20 anos) e 44% pagariam esse prémio pela máxima eficiência energética disponível.
Os dados sugerem um desempenho abaixo das expectativas das funcionalidades conectadas. A importância percebida de programas automáticos diminuiu de 66% em 2023 para 58% em 2024, enquanto as ofertas personalizadas desceram de 56% para 51%.
Contudo, a análise demográfica revela diferenças geracionais significativas. Os respondentes da Geração Z e millennials classificaram estas funcionalidades 9 a 12 pontos percentuais acima da média global, enquanto os baby boomers ficaram 10-11 pontos abaixo. Esta divergência sugere que a conectividade poderá ganhar relevância à medida que as gerações mais jovens se tornem o segmento dominante do mercado.
Apesar da crescente digitalização, o retalho físico continua a dominar as vendas de electrodomésticos. Apenas 20% das compras são realizadas online, sendo que as vendas directas através dos websites das próprias marcas representam meros 1% do total.
Curiosamente, 30% dos consumidores pesquisam produtos nos websites dos fabricantes antes da compra, mas apenas 20% completam as suas compras online, revelando um paradoxo digital que as marcas ainda não conseguiram resolver.
O estudo identifica os serviços pós-venda como uma área com potencial significativo por explorar. Uma percentagem considerável de consumidores não adquire serviços disponíveis — entrega ao domicílio (29%), instalação (54%) e garantia (65%) — mas 15 a 20% não os adquiriram porque não lhes foram oferecidos.
Esta lacuna representa não apenas uma oportunidade de receita adicional, mas também de interacção com os consumidores após o ponto de venda, o período ideal para fomentar a fidelização e encorajar compras futuras.
O estudo da McKinsey desenha um cenário claro para a indústria: o futuro está no retorno aos fundamentos, mas executados de forma superior. As marcas que conseguirem simplificar as suas propostas de valor, centrar-se na durabilidade e eficiência, e desenvolver estratégias de serviços robustas terão vantagem competitiva num mercado cada vez mais exigente.
Para o contexto angolano, embora o estudo não abranja mercados africanos, as tendências globais sugerem oportunidades significativas para importadores e retalhistas que conseguirem comunicar eficazmente o custo total de propriedade dos produtos, implementar serviços de instalação e garantia como diferenciadores, e desenvolver canais digitais focados no registo de produtos e fidelização de clientes.
O estudo “What’s trending in white goods? Durable, efficient, and affordable” está disponível no website da McKinsey & Company e representa uma análise fundamental para compreender a evolução do mercado de electrodomésticos nos próximos anos.




