ANDA Quer Resolver Três Problemas Estruturais em Angola
Startup angolana combina transporte, crédito e inclusão financeira para transformar a mobilidade e criar oportunidades económicas

A ANDA posiciona-se como muito mais do que uma empresa de transporte. Em entrevista ao Marcas em Acção, Ângela de Miranda, um dos rostos da empresa, explica como o modelo combina mobilidade, financiamento de activos e educação financeira, com resultados que já mudaram vidas concretas em Luanda.
Das motas aos carros: o que é, afinal, a ANDA
O nome pode evocar movimento, e não é por acaso. A ANDA define-se como uma empresa de mobilidade, das duas rodas às quatro, mas também de financiamento de activos. O modelo funciona assim: pilotos e motoristas parceiros utilizam os veículos da empresa mediante pagamentos semanais e, no final do contrato, o activo passa a ser deles. Tornam-se proprietários.

Mas há uma camada que vai além do negócio imediato. “Somos uma empresa que tenta resolver três problemas: a informalidade, a mobilidade e o financiamento para pessoas que normalmente não conseguem ir a um banco pedir crédito”, resume Ângela de Miranda.
Em Angola, a empresa estima que existam cerca de 1,2 milhões de pilotos informais, dos quais 600 mil só na capital. Sem seguro, sem equipamento adequado, sem proteção em caso de acidente. É precisamente aí que a ANDA entra.
Educação financeira no terreno: o que nenhum banco faz
Um dos pilares menos visíveis, mas talvez o mais diferenciador, é o trabalho pedagógico junto dos parceiros. A empresa tem equipas dedicadas a acompanhar os pilotos na gestão do rendimento diário: combustível, manutenção (que é responsabilidade da ANDA), pagamento à empresa, e o que sobra é inteiramente do piloto.
“Não é um trabalho fácil, porque estamos essencialmente a tentar educar financeiramente alguém que talvez nunca teve a oportunidade de se sentar numa sala de aula”, admite Ângela de Miranda. “Aprender a linguagem deles é extremamente necessário para conseguirmos passar uma mensagem de fácil compreensão.”
Os resultados existem. Em menos de oito meses, um dos pilotos abriu um salão e uma padaria. Outro caso que marcou foi o de um condutor de tuk-tuk com deficiência física. “Ele usou um termo que ficou: ‘a ANDA tornou-se as minhas pernas'”, conta Ângela de Miranda. “Hoje tem a capacidade de contribuir quando a família precisa, já se sente útil, o que não acontecia antes.”

A academia, o GPS e a task force
Antes de se tornar piloto ANDA, é obrigatório passar pela academia da empresa, que não se trata de uma escola de condução convencional, mas um treino intensivo de sessenta horas que avalia competências reais para operar em estrada. Quem não reunir condições, não avança.
Do lado operacional, todos os ativos estão equipados com GPS. Em três anos, a empresa perdeu um número residual de veículos. Há uma task force permanente e equipas de patrulha que conhecem a morada e o contexto familiar de cada parceiro. Um nível de controlo que, paradoxalmente, também serve de rede de proteção para os próprios pilotos.
Nos pagamentos, a parceria com a carteira digital LinkedPay é a aposta na transformação digital, ainda que o processo de adoção seja gradual. “São dificuldades que acabam por se tornar soluções, mas que precisam de ser vividas para serem respondidas”, diz Ângela de Miranda.
Para o mercado, mobilidade. Para os investidores, outra conversa
A estratégia de comunicação da ANDA opera em dois registos distintos. Para o grande público, a mensagem é mobilidade. Para potenciais investidores, o argumento é outro: trata-se da primeira vez que um consórcio de quatro empresas internacionais, de quatro países diferentes, investe numa startup angolana. O BFA também investiu. E a diretora-geral do FMI visitou a empresa.
“Estamos a abrir portas para que as próximas startups não passem pelas mesmas dificuldades que nós passámos”, sublinha Ângela de Miranda, num contexto que ganhou novo alento com a recente aprovação da lei das startups em Angola.
A comunicação de impacto social não estava no plano original. Cresceu com a empresa. “Faz parte da estratégia, mas foi algo que foi crescendo com a necessidade.”
Expansão prevista: RDC e, desta vez, só elétrico
Actualmente concentrada em Luanda, a ANDA pretende expandir para outras geografias, a nível nacional e internaciona. O plano inclui entrada na República Democrática do Congo, já com uma aposta exclusiva em veículos eléctricos.
O modelo é considerado replicável, mas Ângela de Miranda é clara quanto ao trabalho necessário: perceber hábitos locais, formas de pagamento e acesso ao transporte antes de qualquer movimento. A consolidação do que já existe em Luanda é a prioridade imediata.
Em síntese
A ANDA é uma startup angolana que combina mobilidade urbana, financiamento de activos e inclusão financeira num modelo integrado dirigido a quem está fora do sistema bancário formal. Com presença exclusiva em Luanda, opera com motas, tuk-tuks e carros, e prevê expansão para a RDC com frota eléctrica. O reconhecimento internacional, com investimento de um consórcio de quatro países e visita da diretora-geral do FMI, coloca-a numa posição singular no ecossistema de startups angolano. A sua comunicação divide-se em duas frentes: mobilidade para o mercado, impacto e retorno para os investidores.




