Tecnologia

Apenas 11% das Empresas Atingiram Maturidade Tecnológica Plena, Revela Relatório da KPMG

O KPMG Global Tech Report 2026 regista um optimismo elevado entre os executivos de tecnologia, mas os dados revelam contradições persistentes entre as intenções declaradas e os resultados efectivamente alcançados

Num inquérito realizado em 2025 a 2.500 executivos de tecnologia em 27 países, a KPMG apurou que apenas 11% das organizações chegaram ao nível máximo de maturidade tecnológica, aquele em que os sistemas estão totalmente escalados e em melhoria contínua. Apesar disso, metade dos inquiridos declarou que espera atingir esse mesmo patamar até ao final de 2026. A distância entre as duas cifras é um dos dados centrais do relatório: as ambições declaradas superam de forma significativa os resultados registados.

O que diz o relatório

O KPMG Global Tech Report 2026, intitulado Leading in the Intelligence Age, cobre dez domínios tecnológicos, desde cibersegurança e dados e análise até computação quântica e gémeos digitais. O inquérito abrangeu organizações com receitas superiores a 100 milhões de dólares, distribuídas por oito sectores, com maior representação dos serviços financeiros (31%) e tecnologia e telecomunicações (11%).

Dos resultados globais, 79% das organizações situam-se nos três níveis superiores de maturidade tecnológica. Porém, apenas 36% têm as suas estratégias financiadas e no caminho certo para escalar, e 32% têm financiamento garantido mas enfrentam obstáculos na implementação. As categorias com maior percentagem de organizações totalmente escaladas são a cibersegurança (18%) e as metodologias modernas de desenvolvimento como Agile e DevOps (14%).

Quanto à inteligência artificial, o optimismo declarado convive com dados menos favoráveis. A percentagem de organizações que conseguiram implementar casos de uso de IA em produção com retorno sobre o investimento caiu 7 pontos percentuais face ao relatório anterior, de 31% para 24%. Ainda assim, 68% dos executivos declaram esperar atingir o nível máximo de maturidade em IA até ao final de 2026.

As barreiras que travam o progresso

Pela segunda vez consecutiva, o relatório identifica a dívida tecnológica e a escassez de talento como os principais obstáculos ao progresso digital. Segundo os dados apurados, 69% dos executivos admitem que os seus programas tecnológicos fazem cedências em áreas como segurança, escalabilidade e normalização de dados para tentar avançar mais depressa, e 63% reconhecem que o custo de resolver essa dívida atrasa o investimento em novas iniciativas.

A escassez de competências qualificadas afecta mais de metade das organizações inquiridas (53%), que admitem não ter o talento necessário para concretizar os seus planos de transformação digital. Esta lacuna era gerível nas fases piloto, mas torna-se um risco crescente à medida que as organizações avançam para implementações de larga escala.

“As organizações que dizem que o custo de resolver a dívida tecnológica as impede frequentemente de investir em novos programas antecipam, contraditoriamente, maiores saltos de maturidade no próximo ano do que aquelas onde este problema raramente ou nunca acontece.”

— KPMG Global Tech Report 2026

Retorno sobre o investimento: um quadro não linear

O ROI médio reportado pelos inquiridos é de 200% (2x), mas o relatório indica que investir mais não garante automaticamente maior retorno. Os resultados dependem, segundo a KPMG, de uma combinação de prontidão organizacional, governação, agilidade e disciplina de execução. O relatório identifica três zonas distintas: uma fase inicial em que investimentos menores e focados geram retornos elevados, uma zona de abrandamento à medida que a complexidade aumenta, e uma zona de aceleração quando a maturidade se consolida.

A tabela abaixo mostra como o retorno declarado varia de acordo com o perfil da organização, segundo os dados do inquérito:

Uma questão transversal identificada pelo relatório é a dificuldade em medir o retorno dos projectos de IA com métricas tradicionais. Embora 74% das organizações afirmem que os seus casos de uso estão a gerar valor de negócio, apenas 24% declaram obter ROI em múltiplos casos de uso. Adicionalmente, 55% dos executivos de tecnologia reconhecem dificuldade em demonstrar e comunicar esse valor a accionistas e partes interessadas. O relatório sugere a criação de indicadores adaptados à realidade da IA, que incluam impacto indirecto e retornos de médio e longo prazo Uma abordagem que, por definição, torna a avaliação menos verificável no curto prazo.

O que muda para organizações e líderes

O relatório dedica atenção especial ao crescimento da IA agêntica — sistemas de IA capazes de executar tarefas de forma autónoma e encadear acções complexas. Segundo os dados apurados, 88% das organizações declaram já estar a investir na integração de agentes de IA nos seus sistemas, e 92% consideram que gerir esses agentes será uma competência essencial nos próximos cinco anos.

As projecções sobre a composição das equipas tecnológicas apontam para uma transformação significativa no horizonte de dois anos. A parcela de colaboradores permanentes deverá cair de 48% para 43%, enquanto a força de trabalho digital, isto é, agentes de IA e sistemas automatizados, deverá aumentar de 28% para 36%. As empresas de alto desempenho planeiam, ainda assim, manter 50% dos seus quadros em funções humanas permanentes até 2027, contra 42% nas restantes organizações. Estes dados são, convém sublinhar, projecções declaradas pelos próprios executivos e não resultados verificados.

No plano da governação, 91% das organizações classificadas como alto performers centralizam o planeamento de investimento tecnológico na função de TI ou num modelo federado liderado por TI, face a 78% das restantes. E enquanto 32% das organizações admitem ter demasiados projectos de IA desconectados, com coordenação e governação insuficientes, apenas 2% dos alto performers reportam a mesma situação, segundo a própria metodologia de classificação da KPMG.

“As empresas que aprenderem a usar a IA e os agentes de IA e todas estas arquitecturas de forma eficaz têm grande probabilidade de deixar para trás os seus concorrentes, e isso passa hoje pela liderança das empresas, departamentos e equipas.”

— Umesh Sachdev, Co-fundador e CEO, Uniphore

Nota: A Uniphore é uma empresa de software de IA conversacional e agêntica, com interesse comercial directo na adopção das tecnologias que o relatório analisa.

O relatório alerta ainda para a necessidade de preparação antecipada para tecnologias com impacto ainda mais disruptivo. A Inteligência Geral Artificial (AGI) e a Superinteligência Artificial (ASI) são apresentadas como cenários que exigem já hoje enquadramentos éticos e arquitecturas organizacionais flexíveis, ainda que os prazos e a própria viabilidade destas tecnologias permaneçam matéria de debate entre investigadores e especialistas independentes. Quanto à computação quântica, 41% dos executivos admitem preocupação por estarem atrasados na preparação para as ameaças e oportunidades que esta tecnologia representa.

O essencial do KPMG Global Tech Report 2026
 
• Apenas 11% das organizações atingiram maturidade tecnológica plena; 50% declaram esperar lá chegar até ao final de 2026.
• A adopção de IA cresce, mas o ROI em múltiplos casos de uso caiu de 31% para 24% face ao relatório anterior.
• Dívida tecnológica e escassez de talento continuam a ser identificados como os principais obstáculos, pela segunda vez consecutiva.
• 88% das organizações declaram investir em agentes de IA; a força de trabalho digital deverá passar de 28% para 36% até 2027, segundo as projecções dos inquiridos.
• Segundo o relatório, os alto performers centralizam mais as decisões tecnológicas e alocam proporcionalmente mais orçamento a crescimento do que a manutenção.
• Computação quântica, AGI e ASI são apresentadas como áreas a acompanhar, ainda que os seus prazos e impacto efectivo permaneçam incertos.

Nota metodológica: O KPMG Global Tech Report é produzido anualmente pela KPMG, consultora global com actividade directa nas áreas de transformação digital e adopção de tecnologia que o relatório analisa. Os dados baseiam-se em respostas autodeclaradas por executivos, sem validação externa independente. Os resultados devem ser lidos com essa contextualização.

Fonte: KPMG Global Tech Report 2026 — Leading in the Intelligence Age. Inquérito a 2.500 executivos de tecnologia em 27 países, realizado em 2025. Os dados reflectem respostas autodeclaradas e não foram sujeitos a validação externa independente.

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