Paulo Tarso Vieira: Liderança e Qualificação São Decisivas Para a Transformação Digital
Director de Operações da ETIC defende que o sucesso da digitalização em Angola depende da combinação entre tecnologia, competências e visão estratégica

A transformação digital nas empresas angolanas depende mais de pessoas, processos e liderança do que da aquisição de tecnologia. A tese é defendida por Paulo Tarso Outeiro Vieira, Diretor de Operações da ETIC, para quem o digital deixou de ser visto como simples suporte técnico e passou a integrar a própria estratégia das organizações.
Segundo o responsável, que acompanha o mercado angolano há catorze anos, o país terá percorrido um caminho relevante neste período. O digital, antes tratado como mera ferramenta de apoio, começa hoje a ser entendido como parte central da estratégia empresarial, defende.
Paulo Tarso Outeiro Vieira reconhece, no entanto, que persistem equívocos. Há ainda empresas onde a transformação digital é confundida com a compra de software, quando o verdadeiro desafio, na sua leitura, é de natureza cultural: alterar processos, mentalidades, modelos de liderança e a forma de servir o cliente.
O director de operações da ETIC sustenta que a maturidade digital cresceu de forma visível nos últimos seis anos, impulsionada pela digitalização da banca, das telecomunicações, dos pagamentos, dos serviços públicos e da educação. Esse movimento, no seu entender, fez com que a segurança digital deixasse de ser um tema circunscrito às áreas de tecnologias de informação para ocupar um lugar estratégico, dado que os negócios passaram a depender de dados, plataformas, conectividade e confiança.
A adopção de computação em nuvem ilustra, segundo o entrevistado, essa evolução. Afirma que há catorze anos o tema era encarado com receio, sobretudo devido às baixas velocidades de internet, e que hoje o recurso à cloud é uma realidade, procurada por empresas que pretendem flexibilidade, redução de custos de infraestrutura e maior continuidade operacional. Entre os obstáculos que considera ainda por superar, aponta a conectividade, os custos de internet, a confiança, a soberania dos dados, a integração com sistemas antigos e a escassez de profissionais certificados.
Para Paulo Tarso Outeiro Vieira, as ferramentas digitais só geram valor quando os colaboradores sabem utilizá-las, administrá-las e integrá-las nos processos. Por essa razão, considera a formação profissional determinante, sobretudo num mercado que, na sua avaliação, precisa de acelerar competências práticas em cloud, redes, cibersegurança, dados, inteligência artificial e gestão de projectos digitais.
Sobre a inteligência artificial, o responsável estima que a tecnologia irá transformar o mercado de trabalho, eliminando tarefas repetitivas mas também criando novas funções. Na sua perspectiva, o maior risco não reside na substituição de profissionais pela IA, mas no facto de profissionais e empresas que não se adaptarem ficarem para trás.
No plano da cibersegurança, o entrevistado avalia que a cultura de prevenção ainda está em desenvolvimento. Muitas empresas, segundo o próprio, só investem após um incidente ou perante exigências regulatórias. Defende a passagem de uma postura reactiva para uma postura preventiva, assente em políticas, formação, cópias de segurança, testes, monitorização, planos de resposta e auditorias regulares.
Quanto aos processos de digitalização, deixa um alerta: digitalizar um processo ineficiente sem o rever primeiro apenas torna a ineficiência mais rápida. Por isso, recomenda que as empresas no início da jornada comecem por definir uma visão clara, façam o diagnóstico dos processos, capacitem as equipas, garantam segurança desde o início, escolham tecnologias escaláveis e meçam resultados.
Em relação ao papel da ETIC, Paulo Tarso Outeiro Vieira afirma que o centro tem apostado em formação alinhada com as exigências do mercado, procurando, nas suas palavras, preparar profissionais não apenas para conhecer ferramentas, mas para as aplicar em ambientes empresariais.
O responsável defende ainda que a transformação digital pode reforçar a inovação nacional e a autonomia tecnológica, ao desenvolver competências locais, reduzir a dependência externa e estimular ecossistemas de startups, integradores, formadores e profissionais especializados. As organizações mais preparadas para competir, conclui, serão ágeis, orientadas por dados, seguras, centradas no cliente e comprometidas com a formação contínua.
O essencial
Na leitura do director de operações da ETIC, a transformação digital não é um projecto de tecnologias de informação, mas uma decisão estratégica de liderança. O futuro das empresas angolanas dependerá, defende, da capacidade de inovar, proteger dados, formar pessoas e usar a tecnologia para gerar eficiência e valor. A mensagem que deixa aos gestores é que quem começar agora, com visão, disciplina e investimento consistente, estará melhor posicionado para competir num mercado cada vez mais digital.




