A Inteligência Artificial Está a Expor Desafios Nas Redes Empresariais
Relatório da Cisco e da Foundry indica que muitas organizações estão a adoptar inteligência artificial mais rapidamente do que conseguem adaptar as suas redes, segurança e infra-estruturas

Um novo estudo da Foundry, encomendado pela Cisco, conclui que a maioria das organizações está a adoptar inteligência artificial a um ritmo superior àquele a que consegue preparar as suas redes empresariais. O dado mais expressivo vem dos adoptantes mais avançados: mesmo entre as organizações que já implementaram IA em larga escala, apenas 30% se consideram totalmente preparadas para suportar o crescimento previsto. Por outras palavras, segundo o relatório, quem está mais à frente é também quem bate primeiro nos limites da própria infra-estrutura.
Contexto: o estrangulamento mudou de sítio
Durante os últimos dois anos, a discussão sobre prontidão para a IA girou quase sempre em torno de GPUs, centros de dados, cloud e grandes modelos de linguagem. O relatório “No time to wait: The accelerating impact of AI on campus and branch networks” desloca a atenção para um ponto menos visível: as redes de campus e de sucursais, ou seja, a periferia onde estão as pessoas, os dispositivos e, cada vez mais, os agentes autónomos.
A leitura de fundo do documento é a de um desfasamento. Modelos, licenças e plataformas de IA podem ser adquiridos em dias. Modernizar redes, reforçar segurança e aumentar capacidade pode levar anos. É essa distância que, segundo o estudo, começa a inquietar os responsáveis tecnológicos.
Os números citados ajudam a perceber a pressão que o relatório descreve. As organizações inquiridas reportam um aumento médio de 34% no tráfego de campus e sucursais associado a cargas de IA nos últimos doze meses e antecipam mais 96% no ano seguinte. O estudo projecta ainda um crescimento acumulado de 209% em três anos. Importa aqui uma nota de rigor: esse valor de 209% não é uma medição, mas uma projecção composta que soma estimativas para IA generativa, agêntica e física, algo que o próprio documento reconhece em nota de rodapé.
Boa parte da mudança, lê se no estudo, vem do comportamento dos agentes de IA, que comunicam entre si e executam tarefas sem intervenção humana. Daí que 67% das organizações registem aumento do tráfego lateral entre sistemas (o chamado tráfego east-west), 64% notem mais tráfego sensível à latência e 61% observem crescimento da automatização contínua. Metade da procura gerada por IA concentra-se, segundo o documento, nas redes sem fios dentro do campus.
No estudo, a segurança surge como o principal travão, e não como uma preocupação à parte. 78% esperam mais risco à medida que a IA avança, 77% afirmam que a superfície de ataque já cresceu no último ano e 61% admitem estar a adiar a expansão de iniciativas de IA enquanto não tiverem mais confiança na sua postura de segurança. O relatório destaca também o fenómeno da “shadow AI”, isto é, equipas que adoptam ferramentas de IA sem conhecimento das áreas de TI, o que reduz a visibilidade e dificulta a governação.
Implicações práticas: um problema de negócio, não apenas de TI
Segundo o relatório, a preparação para a IA deixa de depender só de software. Mais de 90% dos inquiridos reconhecem riscos financeiros e competitivos caso não adaptem a rede, e 75% admitem que actualizações reactivas, feitas à pressa, sairão mais caras a longo prazo.
Há, porém, duas cautelas que o leitor deve ter presentes. A primeira é a origem do estudo: foi encomendado pela Cisco, fornecedora da própria infra-estrutura de rede cuja modernização o documento conclui ser urgente. Os dados não ficam invalidados por isso, mas a moldura de urgência deve ser lida como argumento, e não como facto neutro. A segunda é metodológica: os resultados assentam em percepções auto reportadas por decisores, não em telemetria independente das redes. São, portanto, expectativas e opiniões.
Para o contexto angolano e africano fica ainda uma ressalva importante. O inquérito abrange a Ásia Pacífico, a Europa, o Médio Oriente, a América Latina e a América do Norte, em organizações com mais de 500 colaboradores e uma média de 3.292 localizações. África não está representada na amostra, pelo que as conclusões devem ser lidas com essa limitação.
Em síntese
O estudo defende que a corrida à inteligência artificial pode vir a ser travada não pelos modelos que as empresas usam, mas pela infra-estrutura que possuem. Os pontos essenciais são quatro. Primeiro, o tráfego de IA está a crescer depressa e de forma menos previsível. Segundo, mesmo os adoptantes avançados se sentem mal preparados, com apenas 30% a dizerem se prontos. Terceiro, a segurança passou a ser o principal factor de hesitação. Quarto, o atraso na modernização das redes começa a ser tratado como risco de negócio, e não apenas como questão técnica. Tudo isto, recorde-se, partindo de um documento patrocinado por quem vende a solução proposta e sem dados relativos ao mercado africano.




