
Eu estive lá, mas fui ler os comentários.
Fui convidado para uma noite que prometia ser incontornável. Não me disseram exactamente o que era. Disseram apenas que seria exclusiva, sofisticada, vibrante e absolutamente memorável. Quando quatro adjectivos aparecem antes da explicação, convém aceitar que a explicação talvez já não venha.
O convite chegou pelo WhatsApp, em letras douradas sobre fundo preto. Trazia vários logótipos no rodapé, uma promessa de “uma experiência única e transformadora” e a indicação de traje casual chic, expressão suficientemente vaga para permitir que uns fossem de blazer, outros de ténis brancos e outros vestidos de muita confiança.
Confirmei. Não percebia bem ao que ia, mas percebia perfeitamente o risco de não ser visto lá.
A actividade estava marcada para as 19 horas. Cheguei às 18h55, o que descobri mais tarde ser uma manifestação de ingenuidade e falta de experiência social. O espaço era prestigiado, estrategicamente situado entre uma loja de material eléctrico, uma residência particular e uma obra que parecia estar quase por terminar há vários anos.
À porta, a organização tinha montado uma operação de segurança digna de uma cimeira internacional. Homens vestidos de preto, com coletes tácticos, auriculares, botas pesadas e expressões de quem recebera informações confidenciais sobre a perigosidade dos convidados, controlavam o acesso. Pareciam uma equipa SWAT.
Ninguém sabia exactamente de que ameaça nos protegiam. Talvez de pessoas sem convite. Talvez de antigos parceiros. Talvez de convidados que chegassem pontualmente. Um deles observava o recinto com atenção estratégica. Outro permanecia junto ao portão, imóvel, como se aguardasse uma ordem para evacuar o espaço ou defender a última travessa de mini-hambúrgueres.
Para entrar, era necessário dizer o nome, mostrar o convite, voltar a dizer o nome e aguardar que alguém confirmasse que a pessoa correspondia efectivamente ao nome indicado. Um homem tentou explicar que era VIP. O segurança não se impressionou. Foi um dos raros momentos de igualdade social da noite.
Quando chegou a minha vez, um jovem dinâmico, munido de uma lista impressa e de uma caneta de elevado desempenho, perguntou o meu nome. Disse-lhe. Procurou na primeira página. Depois na segunda. Voltou à primeira. Chamou uma jovem da organização, igualmente dinâmica, que segurava dois telemóveis, um carregador e uma expressão de responsabilidade institucional.
Depois de uma breve concertação estratégica, concluíram que eu devia estar na lista dos VIP. Entrei sem protestar. Não queria perder a única promoção social que me fora atribuída naquele trimestre.
Só depois de entrar percebi que tinha chegado cedo. Muito cedo.
Durante as duas horas seguintes, fomos convidados a circular, sorrir, observar os últimos detalhes da montagem e perguntar discretamente uns aos outros:
— Já vai começar?
Ninguém sabia. Alguns respondiam:
— Já, já.
Outros explicavam:
— Estão só à espera de algumas pessoas.
Pelas 20h30, percebi que aquelas “algumas pessoas” eram provavelmente mais importantes do que todas as pessoas que já lá estavam. O atraso de duas horas não foi tratado como atraso. Era uma recepção prolongada, uma experiência orgânica de networking e uma oportunidade para criar conexões antes do momento oficial. Chegar à hora, naquele contexto, era quase uma forma de exclusão.
Foi durante essa espera que pude observar melhor o ambiente. Era simultaneamente intimista, imponente, acolhedor, exclusivo e grandioso. Não sabia que um ambiente podia ser intimista e imponente ao mesmo tempo, mas naquela ocasião a contradição parecia fazer parte do conceito.
A decoração era sofisticada, contemporânea, irreverente e profundamente identitária. Havia balões, flores artificiais, cortinas brilhantes, luzes LED e letras luminosas com o nome da marca. Uma das letras piscava de forma intermitente, conferindo ao conjunto um carácter disruptivo e uma certa ansiedade eléctrica.
O tapete vermelho apresentava pequenas ondulações, talvez para oferecer aos convidados uma experiência mais imersiva. A iluminação privilegiava a intimidade. Em alguns pontos, privilegiava-a tanto que era impossível reconhecer quem estava à nossa frente. Os lugares sentados eram limitados, o que incentivava a circulação, o networking e a aceitação vertical do cansaço.
Perto da entrada, uma parede personalizada recebia as personalidades que marcavam presença. Influenciadoras digitais, empreendedoras, mulheres empoderadas, activistas sociais, especialistas, mentores, figuras públicas, criadores de conteúdos e vários internautas posavam diante dos fotógrafos. Todos pareciam saber exactamente quem eram. Eu continuava a ser apenas uma pessoa que tinha chegado às 18h55.
Uma influenciadora digital aproximou-se da parede, inclinou o corpo, ajustou o cabelo e ofereceu aos fotógrafos o seu melhor ângulo institucional. Perguntei discretamente a alguém ao meu lado em que área exercia influência.
— Em várias — respondeu.
A explicação pareceu-me suficientemente abrangente.
Logo depois chegou uma empreendedora de referência. Perguntei o que fazia.
— Tem negócios.
— Em que área?
— Em muitas áreas.
Percebi que a verdadeira dimensão do empreendedorismo está justamente em não poder ser explicada numa frase.
A empreendedora cumprimentou outra empreendedora. Ambas concordaram que deviam sentar-se para discutir futuras sinergias. Nenhuma marcou data. A segunda-feira foi mencionada. A segunda-feira, descobri naquela noite, é o dia oficial de todas as parcerias que nunca chegam a existir.
Mais adiante, encontrei um especialista. Não percebi em quê, mas falava com segurança e movimentava as mãos de forma convincente. Disse que o país precisava de mais iniciativas como aquela. A frase causou impacto.
Um activista social concordou. Disse que era fundamental promover a responsabilidade social, gerar impacto positivo e devolver à comunidade. Perguntei-lhe o que fazia concretamente.
— Criamos impacto — respondeu.
Percebi que a concretização podia comprometer a abrangência do conceito.
Por volta das 21 horas, a mestre de cerimónias subiu ao palco. Era apresentadora, comunicadora, criadora de conteúdos, mentora, empresária e embaixadora de várias causas. Tinha uma biografia tão extensa que a actividade corria o risco de terminar antes de ela concluir a própria apresentação.
Começou por chamar algumas personalidades ao microfone. A primeira não estava. A segunda também não. A terceira tinha “acabado de sair”. A cada nome anunciado seguia-se um breve silêncio, alguns olhares em redor e uma consulta urgente entre membros da produção. As personalidades incontornáveis tinham, aparentemente, contornado a ocasião.
Houve, porém, um momento de absoluta eficácia comunicacional.
— Solicitamos ao proprietário do Mitsubishi Pajero que está a bloquear a entrada da residência vizinha que retire a viatura com urgência.
O proprietário apareceu imediatamente. Foi a única personalidade da noite cuja presença ficou inequivocamente confirmada. E talvez a única que sabia exactamente por que razão estava a ser chamada.
A partir daí, a noite começou finalmente a adquirir a forma solene prometida no convite. A música desceu ligeiramente, as luzes concentraram-se no palco e o anfitrião foi chamado para explicar o sentido de tudo aquilo. Era o momento por que eu esperava havia mais de duas horas: alguém iria finalmente dizer-nos por que razão estávamos ali.
O anfitrião avançou com a segurança possível de quem sabe que organizou uma grande ocasião, mas desconfia de que a própria ocasião já começou a organizar-se sozinha. Mal se aproximou do púlpito, uma pequena infantaria de câmaras, microfones, telemóveis e luzes lançou-se sobre ele. Em poucos segundos, o rosto desapareceu atrás dos equipamentos.
Do lugar onde eu estava, via a nuca de um operador de câmara, dois braços levantados, três microfones e uma luz branca tão intensa que parecia preparada para obter uma confissão.
O anfitrião começou a falar. Presumo que tenha começado bem.
Falou de visão, crescimento, futuro e compromisso. Pelo menos foram essas as palavras que consegui distinguir entre a música do DJ, as instruções dos fotógrafos, o ruído das cadeiras a serem arrastadas e os telemóveis erguidos pelos convidados, todos muito ocupados a produzir a prova de presença num momento cuja mensagem podia perfeitamente ficar para depois.
O homem dizia:
— Este projecto nasce da vontade de criar…
E, nesse preciso momento, o DJ, contratado para assegurar a energia da noite, decidiu que a energia estava perigosamente baixa e aumentou o volume.
O anfitrião falava de estratégia. O DJ respondia com graves. Falava de impacto. O refrão da canção pedia que todos levantassem as mãos. Algumas pessoas levantaram-nas. Nunca soube se em apoio ao projecto ou em obediência à música.
Os jornalistas aproximaram ainda mais os microfones, como se a distância fosse o verdadeiro problema. O anfitrião elevou a voz. O DJ elevou o som. Durante alguns minutos, assistimos a uma disputa desigual entre a mensagem da marca e o hit do momento, com muito mais experiência de palco.
No fim, o anfitrião agradeceu. Todos aplaudiram. Poucos ouviram.
Talvez por isso, no dia seguinte, as notícias tenham classificado o seu discurso como “forte, inspirador e carregado de visão”, mas não tenham conseguido reproduzir uma única frase.
Seguiu-se o vídeo institucional, esse género cinematográfico em que qualquer empresa, independentemente do que faça, aparece ligada à inovação, à experiência e a edifícios filmados de baixo para cima.
Vimos imagens de Luanda ao amanhecer, jovens a sorrir diante de computadores, mulheres em reuniões, homens a apertar mãos, carros em movimento, uma criança a correr e uma senhora a olhar para o horizonte. A certa altura apareceu uma estrada vazia, talvez para simbolizar o percurso da marca ou simplesmente porque ficava bem com a música.
O filme terminou com a frase:
“Uma nova forma de criar valor.”
A sala aplaudiu.
Um internauta à minha frente murmurou:
— Isso é muito forte.
Concordei. Não queria ser a única pessoa naquele recinto incapaz de compreender que valor estava a ser criado, para quem e exactamente de que forma.
Foi também nessa altura que um conhecido empresário, aparentemente tocado pelo espírito transformador da noite, decidiu aproximar-se da pista. O DJ percebeu o potencial histórico do momento e escolheu uma música suficientemente animada para unir gerações, sectores e dificuldades de coordenação motora.
O empresário começou a dançar.
Os seus passos eram verdadeiramente novos. Tão novos que nem o próprio corpo parecia ter sido previamente informado. Os pés seguiam uma orientação, os braços ensaiavam uma estratégia diferente e o tronco procurava manter a neutralidade empresarial. Ainda assim, havia convicção. E, como muitas vezes acontece no mundo dos negócios, a convicção acabou por substituir a técnica.
Os telemóveis ergueram-se imediatamente. Pessoas que até então não sabiam explicar o que, afinal, ali se celebrava sabiam agora, com absoluta clareza, que estavam diante do conteúdo da noite. O empresário repetiu o passo mais arriscado e recebeu aplausos sinceros de quem reconhece a coragem onde a coordenação já não pode ajudar.
Perto dali, o activista social começava a protagonizar a sua própria narrativa. Não percebi exactamente o que aconteceu, o que mais tarde permitiu que surgissem várias versões igualmente seguras.
Uns disseram que tentou subir ao palco. Outros garantiram que discutiu com a organização. Houve ainda quem afirmasse que apenas procurava uma tomada para carregar o telemóvel. O certo é que a equipa de segurança, até então privada de uma ameaça à altura dos coletes tácticos, recebeu finalmente uma missão.
O activista foi conduzido para fora com firmeza, discrição e quatro câmaras atrás.
Enquanto isso, duas empreendedoras descobriram que tinham escolhido vestidos iguais. A coincidência foi recebida com o desconforto elegante de duas pessoas que sabem que estão a ser fotografadas. Sorriram uma para a outra, disseram que não havia problema e passaram o resto da noite a evitar enquadramentos conjuntos.
Uma delas explicou que aquilo demonstrava apenas que ambas tinham bom gosto. A outra concordou, com a expressão de quem preferia que a demonstração tivesse ocorrido noutra noite, noutra cidade ou, idealmente, noutra pessoa.
O catering continuava a circular. Os mini-hambúrgueres, pequenos, frios e intensamente procurados, tinham-se tornado a única proposta daquela noite cuja utilidade ninguém discutia.
Ao contrário da plataforma, da visão, da inovação e das oportunidades em várias áreas, o mini-hambúrguer apresentava-se com uma clareza admirável: era pequeno, estava ali e podia ser comido.
Comi dois. Não por entusiasmo, mas porque já passava das dez e a exclusividade, descobri, abre o apetite.
A noite aproximava-se do fim com a serenidade de quem não se sente obrigada a chegar a conclusão alguma. A mestre de cerimónias anunciou que aquele era apenas o princípio. A organização declarou que todas as expectativas tinham sido superadas. Como ninguém revelou quais eram, o feito pareceu ainda maior.
À saída, encontrei um convidado que passara a noite inteira a cumprimentar pessoas com a familiaridade de quem pertencia ao lugar. Perguntei-lhe, finalmente, o que tinha sido lançado.
Ele hesitou.
— Uma plataforma.
— Para quê?
— Para criar oportunidades.
— Que oportunidades?
Olhou para mim com alguma piedade.
— Em várias áreas.
Regressei a casa com um saco de brindes, três cartões de visita, dois contactos que me pediram para ligar na segunda-feira e a convicção de que tinha assistido a algo profundamente relevante. Só não sabia a quê.
No dia seguinte, percebi que a verdadeira noite começara depois de eu sair.
Nas redes sociais, o influenciador que eu vira chegar, sorrir e desaparecer junto ao bar era agora “a presença que parou tudo”. Os mestres de cerimónia tinham sido “brilhantes e irrepreensíveis”, embora a única pessoa que tivesse respondido quando chamada fosse o proprietário do Mitsubishi Pajero que bloqueava a casa do vizinho.
O empresário dançarino tornou-se fenómeno. O vídeo ganhou câmara lenta, música nova e um nome para o passo. Uns elogiaram a sua humildade; outros aconselharam-no a regressar aos negócios.
O activista apareceu já promovido a “polémico activista social”. Ninguém sabia bem o que fizera, mas todos tinham uma versão. A hipótese de apenas procurar uma tomada perdeu por falta de dramatismo.
As duas empreendedoras de vestidos iguais passaram de coincidência a “bife” antes do almoço. Uma publicou sobre originalidade. A outra sobre inveja. Nenhuma falou do vestido. Os seguidores entenderam tudo.
Os mini-hambúrgueres foram elevados a “explosão de sabores”. Uma senhora comentou que estavam frios e foi imediatamente acusada de não saber apoiar o que é nacional.
Ao fim de dois dias, eu sabia quem dançou, quem foi expulso, quem vestiu melhor, quem criou o bife e quem comeu mais mini-hambúrgueres. Continuava sem saber o que a marca fazia.
Sobre ela, encontrei apenas que “reafirmou o seu compromisso com a excelência”.
Não dizia qual compromisso. Nem qual excelência.
Mas quem sou eu para opinar?
Eu só estive lá.
Fui ler os comentários.
Nota: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não vinculam clientes ou parceiros.
António Páscoa é CEO da Isenta Comunicação, consultora especializada em comunicação estratégica, reputação e relações públicas em Angola.




