OPINIÃO

A Noite Em Que Fui Convidado Para Um Evento Incontornável

Por António Pascoa

Eu estive lá, mas fui ler os comentários.

Fui convidado para uma noite que prometia ser incontornável. Não me disseram exactamente o que era. Disseram apenas que seria exclusiva, sofisticada, vibrante e absolutamente memorável. Quando quatro adjectivos aparecem antes da explicação, convém aceitar que a explicação talvez já não venha.

O convite chegou pelo WhatsApp, em letras douradas sobre fundo preto. Trazia vários logótipos no rodapé, uma promessa de “uma experiência única e transformadora” e a indicação de traje casual chic, expressão suficientemente vaga para permitir que uns fossem de blazer, outros de ténis brancos e outros vestidos de muita confiança.

Confirmei. Não percebia bem ao que ia, mas percebia perfeitamente o risco de não ser visto lá.

A actividade estava marcada para as 19 horas. Cheguei às 18h55, o que descobri mais tarde ser uma manifestação de ingenuidade e falta de experiência social. O espaço era prestigiado, estrategicamente situado entre uma loja de material eléctrico, uma residência particular e uma obra que parecia estar quase por terminar há vários anos.

À porta, a organização tinha montado uma operação de segurança digna de uma cimeira internacional. Homens vestidos de preto, com coletes tácticos, auriculares, botas pesadas e expressões de quem recebera informações confidenciais sobre a perigosidade dos convidados, controlavam o acesso. Pareciam uma equipa SWAT.

Ninguém sabia exactamente de que ameaça nos protegiam. Talvez de pessoas sem convite. Talvez de antigos parceiros. Talvez de convidados que chegassem pontualmente. Um deles observava o recinto com atenção estratégica. Outro permanecia junto ao portão, imóvel, como se aguardasse uma ordem para evacuar o espaço ou defender a última travessa de mini-hambúrgueres.

Para entrar, era necessário dizer o nome, mostrar o convite, voltar a dizer o nome e aguardar que alguém confirmasse que a pessoa correspondia efectivamente ao nome indicado. Um homem tentou explicar que era VIP. O segurança não se impressionou. Foi um dos raros momentos de igualdade social da noite.

Quando chegou a minha vez, um jovem dinâmico, munido de uma lista impressa e de uma caneta de elevado desempenho, perguntou o meu nome. Disse-lhe. Procurou na primeira página. Depois na segunda. Voltou à primeira. Chamou uma jovem da organização, igualmente dinâmica, que segurava dois telemóveis, um carregador e uma expressão de responsabilidade institucional.

Depois de uma breve concertação estratégica, concluíram que eu devia estar na lista dos VIP. Entrei sem protestar. Não queria perder a única promoção social que me fora atribuída naquele trimestre.

Só depois de entrar percebi que tinha chegado cedo. Muito cedo.

Durante as duas horas seguintes, fomos convidados a circular, sorrir, observar os últimos detalhes da montagem e perguntar discretamente uns aos outros:

— Já vai começar?

Ninguém sabia. Alguns respondiam:

— Já, já.

Outros explicavam:

— Estão só à espera de algumas pessoas.

Pelas 20h30, percebi que aquelas “algumas pessoas” eram provavelmente mais importantes do que todas as pessoas que já lá estavam. O atraso de duas horas não foi tratado como atraso. Era uma recepção prolongada, uma experiência orgânica de networking e uma oportunidade para criar conexões antes do momento oficial. Chegar à hora, naquele contexto, era quase uma forma de exclusão.

Foi durante essa espera que pude observar melhor o ambiente. Era simultaneamente intimista, imponente, acolhedor, exclusivo e grandioso. Não sabia que um ambiente podia ser intimista e imponente ao mesmo tempo, mas naquela ocasião a contradição parecia fazer parte do conceito.

A decoração era sofisticada, contemporânea, irreverente e profundamente identitária. Havia balões, flores artificiais, cortinas brilhantes, luzes LED e letras luminosas com o nome da marca. Uma das letras piscava de forma intermitente, conferindo ao conjunto um carácter disruptivo e uma certa ansiedade eléctrica.

O tapete vermelho apresentava pequenas ondulações, talvez para oferecer aos convidados uma experiência mais imersiva. A iluminação privilegiava a intimidade. Em alguns pontos, privilegiava-a tanto que era impossível reconhecer quem estava à nossa frente. Os lugares sentados eram limitados, o que incentivava a circulação, o networking e a aceitação vertical do cansaço.

Perto da entrada, uma parede personalizada recebia as personalidades que marcavam presença. Influenciadoras digitais, empreendedoras, mulheres empoderadas, activistas sociais, especialistas, mentores, figuras públicas, criadores de conteúdos e vários internautas posavam diante dos fotógrafos. Todos pareciam saber exactamente quem eram. Eu continuava a ser apenas uma pessoa que tinha chegado às 18h55.

Uma influenciadora digital aproximou-se da parede, inclinou o corpo, ajustou o cabelo e ofereceu aos fotógrafos o seu melhor ângulo institucional. Perguntei discretamente a alguém ao meu lado em que área exercia influência.

— Em várias — respondeu.

A explicação pareceu-me suficientemente abrangente.

Logo depois chegou uma empreendedora de referência. Perguntei o que fazia.

— Tem negócios.

— Em que área?

— Em muitas áreas.

Percebi que a verdadeira dimensão do empreendedorismo está justamente em não poder ser explicada numa frase.

A empreendedora cumprimentou outra empreendedora. Ambas concordaram que deviam sentar-se para discutir futuras sinergias. Nenhuma marcou data. A segunda-feira foi mencionada. A segunda-feira, descobri naquela noite, é o dia oficial de todas as parcerias que nunca chegam a existir.

Mais adiante, encontrei um especialista. Não percebi em quê, mas falava com segurança e movimentava as mãos de forma convincente. Disse que o país precisava de mais iniciativas como aquela. A frase causou impacto.

Um activista social concordou. Disse que era fundamental promover a responsabilidade social, gerar impacto positivo e devolver à comunidade. Perguntei-lhe o que fazia concretamente.

— Criamos impacto — respondeu.

Percebi que a concretização podia comprometer a abrangência do conceito.

Por volta das 21 horas, a mestre de cerimónias subiu ao palco. Era apresentadora, comunicadora, criadora de conteúdos, mentora, empresária e embaixadora de várias causas. Tinha uma biografia tão extensa que a actividade corria o risco de terminar antes de ela concluir a própria apresentação.

Começou por chamar algumas personalidades ao microfone. A primeira não estava. A segunda também não. A terceira tinha “acabado de sair”. A cada nome anunciado seguia-se um breve silêncio, alguns olhares em redor e uma consulta urgente entre membros da produção. As personalidades incontornáveis tinham, aparentemente, contornado a ocasião.

Houve, porém, um momento de absoluta eficácia comunicacional.

— Solicitamos ao proprietário do Mitsubishi Pajero que está a bloquear a entrada da residência vizinha que retire a viatura com urgência.

O proprietário apareceu imediatamente. Foi a única personalidade da noite cuja presença ficou inequivocamente confirmada. E talvez a única que sabia exactamente por que razão estava a ser chamada.

A partir daí, a noite começou finalmente a adquirir a forma solene prometida no convite. A música desceu ligeiramente, as luzes concentraram-se no palco e o anfitrião foi chamado para explicar o sentido de tudo aquilo. Era o momento por que eu esperava havia mais de duas horas: alguém iria finalmente dizer-nos por que razão estávamos ali.

O anfitrião avançou com a segurança possível de quem sabe que organizou uma grande ocasião, mas desconfia de que a própria ocasião já começou a organizar-se sozinha. Mal se aproximou do púlpito, uma pequena infantaria de câmaras, microfones, telemóveis e luzes lançou-se sobre ele. Em poucos segundos, o rosto desapareceu atrás dos equipamentos.

Do lugar onde eu estava, via a nuca de um operador de câmara, dois braços levantados, três microfones e uma luz branca tão intensa que parecia preparada para obter uma confissão.

O anfitrião começou a falar. Presumo que tenha começado bem.

Falou de visão, crescimento, futuro e compromisso. Pelo menos foram essas as palavras que consegui distinguir entre a música do DJ, as instruções dos fotógrafos, o ruído das cadeiras a serem arrastadas e os telemóveis erguidos pelos convidados, todos muito ocupados a produzir a prova de presença num momento cuja mensagem podia perfeitamente ficar para depois.

O homem dizia:

— Este projecto nasce da vontade de criar…

E, nesse preciso momento, o DJ, contratado para assegurar a energia da noite, decidiu que a energia estava perigosamente baixa e aumentou o volume.

O anfitrião falava de estratégia. O DJ respondia com graves. Falava de impacto. O refrão da canção pedia que todos levantassem as mãos. Algumas pessoas levantaram-nas. Nunca soube se em apoio ao projecto ou em obediência à música.

Os jornalistas aproximaram ainda mais os microfones, como se a distância fosse o verdadeiro problema. O anfitrião elevou a voz. O DJ elevou o som. Durante alguns minutos, assistimos a uma disputa desigual entre a mensagem da marca e o hit do momento, com muito mais experiência de palco.

No fim, o anfitrião agradeceu. Todos aplaudiram. Poucos ouviram.

Talvez por isso, no dia seguinte, as notícias tenham classificado o seu discurso como “forte, inspirador e carregado de visão”, mas não tenham conseguido reproduzir uma única frase.

Seguiu-se o vídeo institucional, esse género cinematográfico em que qualquer empresa, independentemente do que faça, aparece ligada à inovação, à experiência e a edifícios filmados de baixo para cima.

Vimos imagens de Luanda ao amanhecer, jovens a sorrir diante de computadores, mulheres em reuniões, homens a apertar mãos, carros em movimento, uma criança a correr e uma senhora a olhar para o horizonte. A certa altura apareceu uma estrada vazia, talvez para simbolizar o percurso da marca ou simplesmente porque ficava bem com a música.

O filme terminou com a frase:

“Uma nova forma de criar valor.”

A sala aplaudiu.

Um internauta à minha frente murmurou:

— Isso é muito forte.

Concordei. Não queria ser a única pessoa naquele recinto incapaz de compreender que valor estava a ser criado, para quem e exactamente de que forma.

Foi também nessa altura que um conhecido empresário, aparentemente tocado pelo espírito transformador da noite, decidiu aproximar-se da pista. O DJ percebeu o potencial histórico do momento e escolheu uma música suficientemente animada para unir gerações, sectores e dificuldades de coordenação motora.

O empresário começou a dançar.

Os seus passos eram verdadeiramente novos. Tão novos que nem o próprio corpo parecia ter sido previamente informado. Os pés seguiam uma orientação, os braços ensaiavam uma estratégia diferente e o tronco procurava manter a neutralidade empresarial. Ainda assim, havia convicção. E, como muitas vezes acontece no mundo dos negócios, a convicção acabou por substituir a técnica.

Os telemóveis ergueram-se imediatamente. Pessoas que até então não sabiam explicar o que, afinal, ali se celebrava sabiam agora, com absoluta clareza, que estavam diante do conteúdo da noite. O empresário repetiu o passo mais arriscado e recebeu aplausos sinceros de quem reconhece a coragem onde a coordenação já não pode ajudar.

Perto dali, o activista social começava a protagonizar a sua própria narrativa. Não percebi exactamente o que aconteceu, o que mais tarde permitiu que surgissem várias versões igualmente seguras.

Uns disseram que tentou subir ao palco. Outros garantiram que discutiu com a organização. Houve ainda quem afirmasse que apenas procurava uma tomada para carregar o telemóvel. O certo é que a equipa de segurança, até então privada de uma ameaça à altura dos coletes tácticos, recebeu finalmente uma missão.

O activista foi conduzido para fora com firmeza, discrição e quatro câmaras atrás.

Enquanto isso, duas empreendedoras descobriram que tinham escolhido vestidos iguais. A coincidência foi recebida com o desconforto elegante de duas pessoas que sabem que estão a ser fotografadas. Sorriram uma para a outra, disseram que não havia problema e passaram o resto da noite a evitar enquadramentos conjuntos.

Uma delas explicou que aquilo demonstrava apenas que ambas tinham bom gosto. A outra concordou, com a expressão de quem preferia que a demonstração tivesse ocorrido noutra noite, noutra cidade ou, idealmente, noutra pessoa.

O catering continuava a circular. Os mini-hambúrgueres, pequenos, frios e intensamente procurados, tinham-se tornado a única proposta daquela noite cuja utilidade ninguém discutia.

Ao contrário da plataforma, da visão, da inovação e das oportunidades em várias áreas, o mini-hambúrguer apresentava-se com uma clareza admirável: era pequeno, estava ali e podia ser comido.

Comi dois. Não por entusiasmo, mas porque já passava das dez e a exclusividade, descobri, abre o apetite.

A noite aproximava-se do fim com a serenidade de quem não se sente obrigada a chegar a conclusão alguma. A mestre de cerimónias anunciou que aquele era apenas o princípio. A organização declarou que todas as expectativas tinham sido superadas. Como ninguém revelou quais eram, o feito pareceu ainda maior.

À saída, encontrei um convidado que passara a noite inteira a cumprimentar pessoas com a familiaridade de quem pertencia ao lugar. Perguntei-lhe, finalmente, o que tinha sido lançado.

Ele hesitou.

— Uma plataforma.

— Para quê?

— Para criar oportunidades.

— Que oportunidades?

Olhou para mim com alguma piedade.

— Em várias áreas.

Regressei a casa com um saco de brindes, três cartões de visita, dois contactos que me pediram para ligar na segunda-feira e a convicção de que tinha assistido a algo profundamente relevante. Só não sabia a quê.

No dia seguinte, percebi que a verdadeira noite começara depois de eu sair.

Nas redes sociais, o influenciador que eu vira chegar, sorrir e desaparecer junto ao bar era agora “a presença que parou tudo”. Os mestres de cerimónia tinham sido “brilhantes e irrepreensíveis”, embora a única pessoa que tivesse respondido quando chamada fosse o proprietário do Mitsubishi Pajero que bloqueava a casa do vizinho.

O empresário dançarino tornou-se fenómeno. O vídeo ganhou câmara lenta, música nova e um nome para o passo. Uns elogiaram a sua humildade; outros aconselharam-no a regressar aos negócios.

O activista apareceu já promovido a “polémico activista social”. Ninguém sabia bem o que fizera, mas todos tinham uma versão. A hipótese de apenas procurar uma tomada perdeu por falta de dramatismo.

As duas empreendedoras de vestidos iguais passaram de coincidência a “bife” antes do almoço. Uma publicou sobre originalidade. A outra sobre inveja. Nenhuma falou do vestido. Os seguidores entenderam tudo.

Os mini-hambúrgueres foram elevados a “explosão de sabores”. Uma senhora comentou que estavam frios e foi imediatamente acusada de não saber apoiar o que é nacional.

Ao fim de dois dias, eu sabia quem dançou, quem foi expulso, quem vestiu melhor, quem criou o bife e quem comeu mais mini-hambúrgueres. Continuava sem saber o que a marca fazia.

Sobre ela, encontrei apenas que “reafirmou o seu compromisso com a excelência”.

Não dizia qual compromisso. Nem qual excelência.

Mas quem sou eu para opinar?

Eu só estive lá.

Fui ler os comentários.

Nota: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não vinculam clientes ou parceiros.

António Páscoa é CEO da Isenta Comunicação, consultora especializada em comunicação estratégica, reputação e relações públicas em Angola.

Parceiros Banner POA

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo