Mercado Global do Luxo Estabiliza em 2026 Num Contexto de Crises Sobrepostas
Estudo da Bain indica recuperação gradual do sector, maior peso das experiências, crescimento da IA na compra e novas dinâmicas de consumo

O mercado mundial do luxo atingiu 1.443 mil milhões de euros em 2025 e deverá seguir, em 2026, um percurso de estabilização gradual, mesmo num cenário de volatilidade económica, tensão geopolítica e mudanças culturais profundas. É esta a leitura do estudo Luxury Goods Worldwide Market Study, na sua actualização da Primavera, apresentado pela consultora Bain & Company em parceria com a Altagamma, a associação italiana dos fabricantes de bens de luxo.
Segundo a Bain, o sector enfrenta aquilo que designa por uma policrise, com choques sobrepostos, ao mesmo tempo que os fundamentos apontam para uma recuperação lenta. O estudo organiza a leitura do mercado em torno de quatro forças interligadas: a valorização das experiências em detrimento da posse de bens, o reequilíbrio dos motores de crescimento entre regiões, a transformação daquilo que o luxo significa para o consumidor e a reconfiguração acelerada dos percursos de compra provocada pela inteligência artificial.
O primeiro semestre de 2026 foi condicionado por uma sucessão de abalos. De acordo com o relatório, o conflito no Médio Oriente pressionou os preços do petróleo, a inflação nos Estados Unidos subiu para o valor mais alto desde Abril de 2023 e a confiança dos consumidores caiu para mínimos. O Banco Central Europeu aumentou as taxas de juro em Junho, pela primeira vez desde 2023, e a previsão de crescimento do PIB global ficou aquém da registada em 2025. As cotações das empresas de luxo recuaram cerca de 8% em Janeiro e o turismo internacional na Europa caiu 20% em termos homólogos em Fevereiro, antes de uma recuperação parcial.
Para 2026, no cenário base da Bain, a despesa global em luxo deverá situar-se entre 1.440 e 1.470 mil milhões de euros, o que representa um crescimento entre zero e 2% a taxas constantes.
A consultora nota que, até agora em 2026, a procura por experiências cresce a um ritmo 1,5 vezes superior ao dos bens tangíveis, num movimento que descreve como uma mudança estrutural da posse para os momentos vividos. Ainda segundo o estudo, a hotelaria de luxo, os jactos privados, os iates e os cruzeiros mantêm-se resilientes, sustentados pela premiumização e pela entrada de novos clientes. A alta gastronomia beneficia de uma lógica de “menos mas melhor” e o mercado da arte regressa ao crescimento. Os pontos mais fracos estão nos automóveis de luxo, ainda penalizados pela transição para o eléctrico, e nos vinhos e bebidas espirituosas, com um consumo mais contido.
O segmento dos bens pessoais de luxo recuou ligeiramente para 358 mil milhões de euros em 2025, partindo dos 364 mil milhões de 2024. A leitura, porém, varia consoante a base de cálculo: uma queda de 2% a taxas correntes, mas uma subida de 1% a taxas de câmbio constantes. Para 2026, a Bain prevê um regresso ao crescimento, entre 2% e 4%, o que colocaria o segmento entre 365 e 373 mil milhões de euros. A consultora atribui a este cenário uma probabilidade de 70%, assente na estabilização do Médio Oriente, na resiliência do consumo local e numa recuperação progressiva da procura chinesa.
O retrato regional é, segundo o estudo, de forte divergência. As Américas surgem como motor de crescimento, ao passo que a Europa e o Médio Oriente travam o desempenho global.
Nos Estados Unidos, o consumo sobe no vestuário e no chamado luxo duro. As marcas norte-americanas cresceram cerca de 10% a 15% em termos homólogos no primeiro trimestre. Os consumidores com menos de 35 anos lideram a procura e, num dado que a Bain destaca, os agregados da classe média alta aumentam a despesa em luxo a um ritmo cerca de duas vezes superior ao dos clientes mais ricos, sinal de um alargamento da base de consumo.
A China dá sinais de retoma, ainda que cautelosa, com as vendas online a subirem entre 25% e 35% no primeiro trimestre. O relatório observa que os consumidores chineses se orientam mais para o vestuário do que para a marroquinaria, afastando-se das compras de estatuto a favor de escolhas ligadas ao pertencimento e à expressão pessoal. A Europa continua a ser, por agora, o elo mais frágil, penalizada pela quebra do turismo internacional, embora os dados de reembolso de impostos de Maio sugiram alguma melhoria no segundo trimestre.
A Bain sublinha duas alterações de comportamento com implicações directas para as marcas. Metade dos compradores de luxo consulta hoje o mercado de segunda mão antes de adquirir um artigo novo, e as pesquisas online por malas vintage mais do que duplicaram num ano. Em paralelo, cerca de metade dos consumidores já recorre à inteligência artificial no seu percurso de compra, e quase todos tencionam continuar a fazê-lo: um em cada quatro usa estas ferramentas para descobrir marcas e produtos, e dois em cada três para comparar.
A consultora alerta que as marcas que não construírem relevância nativa em IA correm o risco de ficar para trás, à medida que a descoberta e a validação das compras passam cada vez mais por canais mediados por inteligência artificial.
Outro dado realçado pelo estudo é o peso crescente do patrocínio desportivo. Mais de 80% do valor de mercado do luxo é hoje representado por marcas que patrocinaram alguma experiência desportiva nos últimos doze meses. Por agora, segundo a Bain, o foco está sobretudo na construção de credibilidade cultural e de notoriedade à escala, e não tanto no impulso directo às vendas.
A análise da Bain conclui que o significado do luxo está a deslocar-se da validação social para um foco individual de realização pessoal, uma passagem do desejo de ser admirado para o objectivo de satisfação própria. Nesta nova fase, defende a consultora, o luxo deixará de definir aquilo que os seus clientes possuem para passar a reflectir o modo como vivem.
Federica Levato, sócia sénior da Bain e co-autora do estudo, resume o desafio das marcas. Afirma que o apetite pelo luxo continua forte, mas que a tolerância para experiências ou produtos desapontantes desapareceu. Acrescenta que mais de 70% dos clientes que se afastaram do luxo tencionam regressar, ainda que não necessariamente às mesmas marcas.
A partir deste diagnóstico, a Bain identifica três imperativos para as marcas: proporcionar encantamento através de experiências imersivas, construir relevância cultural junto de comunidades diversas e oferecer aos clientes uma plataforma de co-autoria através da criatividade e da personalização assentes em IA.
Em síntese
O estudo Bain-Altagamma descreve um mercado de luxo a estabilizar, mas sem regressar ao ritmo anterior. A despesa global atingiu 1.443 mil milhões de euros em 2025 e deverá manter-se estável em 2026. Os bens pessoais de luxo recuam ligeiramente para 358 mil milhões, com previsão de crescimento de 2% a 4% este ano. O desempenho diverge por regiões, com as Américas a puxar e a Europa a travar. As experiências crescem mais depressa do que os bens, o mercado de segunda mão e a inteligência artificial entram no centro da decisão de compra, e o patrocínio desportivo afirma-se como ferramenta de construção de marca. Para a Bain, vencerão as marcas capazes de reinventar continuamente a sua relevância junto dos consumidores e dos ecossistemas conduzidos por IA.




