
Com 16 anos de experiência profissional, Carolina Carneiro Mendes de Freitas Lopes é Partner & CEO da Authentic, empresa que fundou e que considera o projecto mais representativo do seu percurso. Pragmática, directa e orientada para resultados, reconhece que a imagem de segurança que transmite nem sempre revela as dúvidas e a sensibilidade que fazem parte da sua forma de liderar. Para Carolina, a comunicação exige conhecimento do consumidor, compreensão da cultura e capacidade de transformar estratégia em resultados. Nesta edição do BI Profissional, fala sobre empreendedorismo, liderança, responsabilidade nas decisões, campanhas que marcaram a publicidade angolana e a importância de saber parar para recuperar a clareza.
Qual é a primeira app que abres logo de manhã?
O WhatsApp e, logo de seguida, o e-mail. O meu telemóvel não tem notificações, uma decisão bastante consciente, por isso sou eu que escolho o que merece a minha atenção e quando. Sou uma “morning person” e, quando pego no telemóvel de manhã, normalmente já estou a organizar mentalmente o dia. Por isso, inevitavelmente, começo pelas aplicações de trabalho.
Qual é a percepção que toda a gente tem de ti e que não corresponde à verdade?
Acho que há várias percepções sobre mim que estão relacionadas: que sou fria, extremamente segura de mim e que gosto de controlar tudo. Não é bem assim, mas percebo de onde vêm essas percepções. Sou pragmática, directa, exigente e muito orientada para a resolução de problemas e para os resultados. Quando alguma coisa acontece, o meu primeiro instinto é perceber qual deve ser o “next step”. Não perco muito tempo a pensar no “e se” e isso pode fazer parecer que as coisas não me afectam.
Mas afectam, e bastante. Sou muito mais emocional e sensível do que aparento, questiono-me muito e penso no impacto que as minhas decisões têm nas pessoas e na operação como um todo. Ser decidida não significa que não tenha dúvidas, mas apenas que aprendi a não deixar que as dúvidas me paralisem.
Sobre o controlo, aí admito que há alguma verdade. Tenho dificuldade em reter informação e acompanhar as coisas quando não estou envolvida. A minha cabeça funciona com abas e números e, por ser uma pessoa altamente prática e racional, preciso de ver, acompanhar e compreender as coisas para que elas ocupem espaço na minha cabeça. Talvez daí venha também essa necessidade de estar por dentro de tudo.
Mais do que a falta de controlo, tenho dificuldade em lidar com a falta de responsabilização. Não me incomoda que alguém pense diferente, decida diferente ou até erre. Incomoda-me que não haja pensamento ou responsabilidade por detrás da decisão.
Talvez a percepção seja a de alguém muito racional e imperturbável. A realidade é que sinto muito, penso demasiado, mas aprendi a não deixar que nenhuma das duas coisas me impeça de decidir.
Se tivesses de escolher apenas um projecto da tua carreira para mostrar a um desconhecido, qual seria e porquê?
A Authentic, claro! Tenho um carinho especial por cada projecto em que estive envolvida e por cada empresa por onde passei. Todas contribuíram para a profissional que sou hoje. Mas a Authentic é nossa. Saiu das tais “abas e números” que passeiam na minha cabeça para a realidade.
E não escolheria a Authentic apenas porque a fundei. Escolheria porque é provavelmente o projecto que melhor reúne tudo aquilo em que acredito profissionalmente: estratégia, criatividade, pessoas, risco, gestão e uma dose considerável de teimosia. Construir uma empresa obriga-nos a ser profissionais de comunicação, gestores, financeiros, comerciais e líderes, muitas vezes no mesmo dia.
É o meu maior orgulho profissional e ocupa também uma parte muito significativa do meu lado pessoal.
Que campanha angolana, de qualquer marca, te fez pensar “isto foi mesmo bem feito” e porquê?
É difícil escolher uma só, mas há duas que me vêm imediatamente à cabeça, de momentos muito diferentes.
Uma é “Em Angola, cerveja é Cuca”. É uma campanha antiga, de 2014, mas para mim continua a ser um excelente exemplo de comunicação feita a partir de um conhecimento real do consumidor e da cultura angolana. A Cuca já era uma marca profundamente enraizada no país e a campanha teve a inteligência de não tentar inventar: pegou numa relação que já existia e deu-lhe uma expressão criativa muito forte.
Gosto particularmente da forma como trabalha os códigos, a linguagem, as pessoas e o quotidiano angolano sem ser uma representação artificial. E depois há uma coisa que, para mim, é talvez a maior prova de sucesso: mais de dez anos depois, eu lembro-me imediatamente do conceito e, por isso, acho a construção de marca altamente bem feita.
Mais recentemente, destacaria “O Regresso das Lendas”, da UNITEL. Aqui por razões um pouco diferentes. Achei a ideia culturalmente relevante e muito bem executada. Conseguiram trabalhar nostalgia e referências que já faziam parte do imaginário das pessoas, trazendo-as para um contexto contemporâneo e para o universo da marca.
No fundo, acho que as duas têm uma coisa em comum: não tentaram impor a marca à cultura; encontraram o lugar que a marca podia legitimamente ocupar dentro dela. Para mim, quando estratégia, criatividade, cultura e execução se encontram dessa forma, penso: isto foi mesmo bem feito.
O que é que fazes quando um projecto corre mesmo mal e precisas de recuperar a cabeça?
Durmo. Parece que estou a brincar, mas é sério. Não há nada que uma boa sesta ou uma boa noite de sono não ajudem a reparar. Penso muito melhor quando acordo revigorada. Então primeiro durmo, depois analiso e faço o “luto”. A partir daí, parto para a solução. Ou, quando já não há solução, para a melhor forma de gerir as consequências.
Quem é a primeira pessoa a quem ligas quando estás com dúvidas ou precisas de alguma ajuda a nível profissional?
Às minhas sócias. E juro que não é um lugar-comum. Sermos três tem muitas vantagens. Uma delas é poder ligar à Poupée para debater determinado assunto, à Lay para discutir outro e, quando é preciso, sentarmo-nos as três a decidir. No final do dia, podemos ter perspectivas diferentes, mas as decisões e as respectivas consequências são sempre nossas.
Ficha Rápida
Nome: Carolina Carneiro Mendes de Freitas Lopes
Cargo: Partner & CEO
Empresa: Authentic
Experiência: 16 anos de experiência profissional na área, desde 2010, com percurso ligado à comunicação, estratégia, criatividade e gestão. Fundadora da Authentic.
O BI Profissional é uma rubrica do Marcas em acção dedicada aos profissionais que ajudam a construir as marcas, as narrativas e a comunicação em Angola.
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