Bebidas Sem Álcool em Angola: Tendência Pontual ou Mudança Real de Hábitos?
A Multiáfrica e o Luanda Gourmet notam mais procura por vinhos, espumantes e cervejas 0.0 numa classe média atenta à saúde, mas consideram o fenómeno ainda residual e muito ligado à pressão social do grupo

A procura por vinhos, espumantes e cervejas sem álcool começa a ganhar visibilidade em Luanda, sobretudo numa classe média mais atenta à saúde, mas trata-se ainda de um movimento residual e pontual, sem expressão nos volumes de importação e venda. A leitura é avançada por Diogo Miranda Alves, Director-Geral da Multiáfrica, distribuidora de bebidas alcoólicas, e por Pedro Campos, do Luanda Gourmet, em conversa motivada pelo contacto com o vinho Natureo 0,0 durante um evento naquele espaço. As observações que se seguem correspondem à percepção de mercado destes dois responsáveis, e não a dados independentes, escassos no país.
O contexto: um mercado que ainda não desce
A leitura da distribuidora é cautelosa. Por operar na distribuição, e não no contacto directo com o cliente final, a empresa diz não dispor de indicadores que apontem para uma quebra no consumo de álcool. Diogo Miranda Alves sublinha que, ao contrário do que sucede na Europa ou na América, Angola não tem dados de mercado tão fiáveis, e que o volume de importação e de venda de vinho não tem diminuído. Daí a sua avaliação de que estamos perante mudanças pontuais e não perante uma evolução estrutural do mercado.
Ainda assim, o responsável identifica o surgimento de uma classe média mais preocupada com o consumo de álcool, por motivos de saúde ou de religião, sendo este último, no seu entender, um factor de peso no afastamento total da bebida por questões ideológicas.
Onde a mudança se torna palpável é no contacto directo com o consumidor. Diogo Miranda Alves conta que, em convívios de oito a dez pessoas, havia quase sempre alguém que não bebia álcool e optava por uma limonada ou por água. Com a introdução de uma opção de vinho sem álcool, refere, esses clientes passaram a sentir-se mais confortáveis por estarem a degustar algo que mantém o nome de vinho.
Porque mudam (e porque resistem) os consumidores
Para Diogo Miranda Alves, a principal alavanca é a informação. Defende que o acesso ao conhecimento trouxe uma consciência sobre benefícios e malefícios que não existia há cinco anos, permitindo escolhas mais informadas. Aponta ainda o papel das comunidades desportivas, dando o exemplo do CrossFit, que terão criado grupos com hábitos mais saudáveis, embora reconheça que o consumo, mesmo aí, não desaparece.
Do outro lado pesa a cultura. Em ajuntamentos, óbitos, pedidos ou sentadas de fim de semana, o álcool está sempre presente, e a pressão social do grupo continua a condicionar quem prefere não beber, fenómeno que, como nota o responsável, não é exclusivo da realidade angolana.
É neste ponto que entra o conceito de substituição: a maioria de quem procura uma alternativa sem álcool não o faz de forma isolada, mas para se manter integrado no grupo, optando por um espumante sem álcool se os outros bebem espumante, ou por um branco se o grupo bebe branco. Tanto Diogo Miranda Alves como Pedro Campos concordam que dificilmente alguém pede um vinho sem álcool por si só, fora deste contexto de convívio.
Pedro Campos, com larga experiência anterior no sector hoteleiro, introduz uma nota de cepticismo. Compara o vinho sem álcool ao chocolate sem açúcar, argumentando que, se a pessoa procura a experiência integral de uma bebida, o melhor é manter-se no produto original, já que o álcool é, na sua expressão, um desinibidor com milénios de história. Ressalva, contudo, que quem não bebe por razões próprias deve ser respeitado.
Sabor, categorias e o peso da experiência
Sobre a qualidade das alternativas, a avaliação de Diogo Miranda Alves é desigual. O vinho tinto sem álcool estaria ainda numa fase inicial, sem atingir, no seu entender, padrões mínimos de sabor, em parte pelos processos químicos de remoção do álcool. Já os brancos e os espumantes ofereceriam uma experiência mais conseguida, ajudada pela bolha do dióxido de carbono, que disfarça a fruta e a mineralidade. A cerveja seria o caso mais maduro, com destaque para as belgas sem álcool.
Ambos os entrevistados insistem na moderação. Pedro Campos relata que tem encontrado dois tipos de cliente: quem não bebe álcool mas quer a experiência do vinho, e quem, bebendo álcool, experimenta a versão sem álcool por curiosidade. Para o responsável, o essencial é dar escolha ao consumidor.
No plano da saúde, Diogo Miranda Alves chama a atenção para a desinformação e para estudos contraditórios, lembrando que um mesmo estudo pode condenar qualquer quantidade de álcool e, em simultâneo, referir alguns efeitos fisiológicos em doses muito moderadas, embora a orientação dominante dos organismos internacionais de saúde aponte para a inexistência de um nível de consumo de álcool isento de risco.
Impacto nas marcas, distribuidores e retalho
Para o negócio, a mensagem dos dois responsáveis é de oportunidade contida. Há mercado, mas, na sua convicção, ainda muito residual, sem expressão no vinho. Pedro Campos lembra que quem não quer álcool tende a preferir um cocktail, recordando a riqueza das soluções naturais disponíveis em Angola, dos cocktails sem álcool a produtos de fermentação local como o maruvo e a quissângua, feita a partir do milho.
Diogo Miranda Alves antecipa, ainda assim, espaço para um maior posicionamento destes produtos, impulsionado pela presença de expatriados que chegam com tendências do Brasil, Europa, América do Norte, entre outras geografias. A postura da empresa, diz, é de acompanhamento: se a procura crescer, alargam a variedade; se não, não forçam, até porque, segundo nota, são poucas as lojas em Luanda com vinho sem álcool no linear.
Em síntese
O consumo de bebidas sem álcool cresce em Luanda como fenómeno pontual e ligado à lógica de substituição em grupo, e não como mudança estrutural do mercado, que continua sem dar sinais de quebra. A informação e as comunidades de estilo de vida saudável empurram a procura, enquanto a pressão social e a cultura do convívio a travam. Para marcas e retalho, há uma janela de posicionamento real, mas ainda estreita, sobretudo no vinho, onde os cocktails e as bebidas tradicionais angolanas competem com vantagem no terreno do prazer e do sabor.




